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PT e PSDB: fisiologismo político e democracia

É notório que o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) são, sem sombra de dúvidas, a maior rivalidade da democracia nacional desde o período de suas respectivas fundações – que inclusive é datada pouco tempo após a redemocratização -, mas o que poucos militantes percebem, ou ao menos fingem não perceber, é o fato de que o PT ao longo dos anos sofreu tanta distorção na sua composição pratico-ideológica que chegou ao ponto de uma possível união entre petistas e tucanos não chocarem a militância petista. 

Obviamente, em partes, a aceitação dessa união é justificável se considerarmos o momento de crise na qual se encontra a política brasileira no Brasil de Bolsonaro. E vale ressaltar que não é a primeira vez que PT e PSDB se unem em defesa da democracia: na década de 70 e 80, Lula e FHC estiveram juntos em movimentos contra a ditadura militar e foram participantes ativos importantes do “Diretas Já”, e mesmo que tais movimentos antecedam a existência de ambos os partidos, já era possível naquela época notar as diferenças entre o movimento que originou Lula como liderança – o sindicalismo, e o movimento que notabilizou FHC (as academias e etc), ambos em perspectivas políticas e sociais diferentes – sindicalismo e liberalismo; classe baixa e classe média, mas ainda assim conciliando-se em prol da luta pela democracia e é claro, seus Partidos não poderiam ser outra coisa senão expressões de vossas senhorias, portanto o PT é Lula e o PSDB é Fernando seja antes ou depois de suas fundações institucionais. Entretanto, no que tange essa união, não tão fora do comum, é necessária uma reflexão crítica em comparação do período da história, contexto político e as motivações que conduzem cada um dos partidos nesta decisão para que não cometamos anacronismo ao dizermos que a união atual tem como propósito o mesmo que a de 30 anos atrás.

O PSDB continuou sendo até os dias de hoje um dos partidos mais fortes do Brasil. Ainda que não tenha vindo a emplacar um novo presidente da república desde FHC, sua expressão nacional se dá devido a suas vitórias em cargos menores do executivo como as prefeituras e governos Estaduais – com destaque especial a região e o Estado de São Paulo. Os tucanos tentam desde 2002 replicar a mesma polarização das campanhas presidenciais de 1994 e 1998 para crescer na rivalidade contra o PT, mas o motivo da popularidade do PSDB talvez não esteja tão claro na cabeça dos tucanos que podem não ter percebido que boa parte da confiança popular no partido vinha da fama de FHC como o “pai do plano real” e não necessariamente do antipetismo – ainda que Aécio Neves tenha sido percussor do ódio contra o PT baseado em mentiras e alegações de fraude eleitoral, o que claramente foi fonte de inspiração para o bolsonarismo e nos trouxe para a situação que vivemos hoje.

Porém, no Brasil, a esquerda já é um posicionamento político condenado às vistas do público, isto é, culturalmente o brasileiro tende a ser antiesquerdista. A influência do período colonial e o sistema político que redigia a monarquia e mais tarde, sua queda, dando início ao republicanismo de cunho liberal e positivista, que perdurou ao longo dos anos, acabou por sepultar qualquer possibilidade de uma esquerda surgir no país. Ademais, foram muitos anos de governos autoritários que propagandeavam contra a esquerda – 15 anos de ditadura getulista e 21 anos de governo militar. Não à toa, costumo dizer que a Esquerda brasileira é fruto de um fetichismo dos positivistas e políticos populistas, e romance ficcional dos apoiadores, porque em ambos os lados, sobre todas as percepções, ela não existe. A esquerda brasileira sempre se aproximou muito mais de um ideário democrático e uma luta insurrecional pela liberdade do que da própria ideia de esquerdismo, e é por este motivo que o esquerdista brasileiro parece ser tão diferente dos demais iguais latino-americanos, sendo muito mais um liberal democrata do que qualquer outra coisa. É importante lembrar que defender um sistema público de saúde, minorias e pautas sociais não te faz de esquerda, uma vez que estes são preceitos instrumentalizados na prática por políticas públicas, que por ora, é uma prática liberal e logo é refutada pelo marxismo e muitas outras entidades e autores intelectuais de esquerda. Portanto, o que quero afirmar com tudo isso é justamente que o antipetismo sempre existiu e nunca houvera a menor possibilidade de a esquerda ganhar uma eleição presidencial no Brasil. Em 1989 estávamos na primeira eleição direta, saindo de 21 anos de ditadura militar e os resquícios da censura e o repúdio à democracia ainda pairavam sobre o pensamento da população, por isso, Collor de Mello venceu com o mesmo discurso do anticomunismo promovido pelos militares e posteriormente, FHC venceu duas vezes no primeiro turno com propostas liberais, enquanto Lula só venceu em 2002 na quarta tentativa de se eleger, justamente por mudar seu discurso no que se referiam aos grandes bancos, empresários e outros membros importantes do poder econômico do mercado.

Em seu primeiro mandato, o PT tanto mostrou uma face distante da esquerda que muitos membros saíram ou foram expulsos do partido como Heloísa Helena, Luciana Genro e João Fontes, que mais tarde fundaram o PSOL com o objetivo de fazer jus a esquerda no Brasil. Mais tarde, ao fim dos mandatos de Lula e Dilma, dados comprovaram que os grandes bancos cresceram ainda mais e expandiram seus monopólios transacionais no governo petista do que no governo de FHC. Os bancos lucraram 279,9 bilhões de reais durante todo o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contra 34,4 bilhões de reais durante mandato de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Este levantamento foi feito em uma pesquisa da revista Valor Econômico. O fato é que, doa a quem doer, o PT se um dia foi de esquerda, atualmente não é mais, até porque se fosse, jamais teria a expressividade que possui hoje.

Tendo isso em vista, as diferenças entre PT e PSDB são quase nulas, o que torna esta união bem mais aceitável. O problema é, ainda que Lula e Fernando sejam figuras com valores democráticos e princípios aparentemente nobres, o que move os tucanos em si, pode não ser tão nobre assim.

No entanto, o PSDB ainda pretende arriscar lançar um presidenciável, mas a possibilidade de juntar-se ao PT no segundo turno caso o presidenciável tucano, que até então confirmado pela vitória na pré-eleição interna do partido, é o João Dória, perca, revela a intenção do partido de participar futuramente do governo.

Ainda que o PT necessite de partidos poderosos como o PSDB e MDB para dialogar com o centrão em um possível governo de conciliação, a aliança com o MDB já trouxe resultados danosos aos petistas e quando o PSDB revelar o mesmo conspiracionismo pode ser tarde demais para reagir como foi em 2016. Todavia, faz parte do jogo. O fisiologismo político, como refere-se o termo, remete a um sistema fisiológico padrão que pode muito bem favorecer todos os membros ou revelar-se com uma degeneração autoimune que destrói o próprio corpo, ou no caso da política, pode destruir um só membro do corpo: o mais fraco.

Bancos lucraram 8 vezes mais no governo de Lula do que no de FHC | VEJA (abril.com.br)

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Autor: Leonan Benax Morais Belfort, ex-filiado do PSDB e atual filiado ao PT desde 26 de janeiro de 2022

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